Ah.... que saudades de voltar a escrever.
Mas não estava conseguindo fazer meus dedos digitarem nem meu coração falar.
Hoje volto, cheia de vontade de dividir minha experiência pessoal.
Passei mais ou menso sessenta dias hospitalizada, fechada num quarto de hospital, rodeada de médicos, enfermeiros, aparelhos, remédios, exames, e de tudo o mais que se tem direito num hospital. Todos fazendo seu papel maravilhoso que é salvar vidas, como salvaram a minha.
Num local assim as atenções são voltadas ao corpo do paciente, que se encontra doente.
Há uma preocupação coletiva e uma torcida para que a recuperação aconteça.
E aconteceu aos poucos. Fui saindo da parte crítica aos poucos e voltando a viver.
Apesar de todo o processo doloroso disso tudo meu coração jamais esquecerá destas pessoas que estiveram comigo, lutando junto.
A volta para casa.
A alegria de sentir o cheirinho caseiro, de poder estar no meio das pessoas que se gosta, de sentir o cheiro da velha comida caseira. A cama, as coisas, o sol, a janela, enfim, só quem passou tanto tempo presa sabe o que é isso.
Mas aí chegaram as pessoas.
É incrível como o ser humano não sabe reagir a determinadas situações.
No início não ligava para as visitas e os comentários feitos durante estas.
Mas os dias vão passando e começo a me dar conta de que, como a maioria não sabe como agir diante de uma situação mais grave, acabam assumindo papéis que não são seus.
Me senti de volta ao hospital, mas em vez de rodeada de profissionais, rodeada de leigos que estão cheios de "achismos".
A visita entra na sua casa e sai logo perguntando, como está hoje? Teve febre? Tem dor? Está fazendo o tratamento direitinho? Está comendo? Está tomando os remédios?
Como se médicos fossem, ou como se eu fosse "algo inconsciente" que precisa ser monitorado constantemente.
Tem uma pessoa em especial que se não fosse cômica eu estrangularia! hahaahahaha
Ela liga todos os dias e pergunta a quem atende o telefone:
"Então, ela melhorou?"
Como se meu quadro fosse se modificar da noite para o dia!
Mas o que é pior, depois da informação de que as coisas estão transcorrendo como tem que ser, ela liga para os seus contatos colocando todos em alerta, dizendo que não melhoro, que o quadro não se modifica, chegando a dar opiniões pessoais sobre os médicos que me acompanham.
Cada um reage ao seu modo e dentro do que consegue.
Sei disso.
Não condeno esta atitude, mas tenho pena delas e dos pacientes que devem passar pelas mesmas experiências que eu.
A doença está no corpo e não na alma.
O fato de se estar passando por uma dificuldade física não te tira o fato de ser gente.
O doente sabe pelo que está passando e vive 24 horas isso.
Não tem como fugir desta realidade.
Mas ainda é a mesma pessoa que sempre foi.
Alegre ou triste, continua com suas características de ser humano.
As pessoas esquecem disso.
Queria que a cada visita as pessoas fossem mais naturais.
Não se precisa falar de doença, pois isso é óbvio.
O paciente quer vida!
O paciente quer ser tratado normalmente e não como doente.
Queria rir mais com cada um.
Mas como rir se a conversa está sempre em volta de meu corpo e não de mim mesma?
Acabei restringindo as visitas.
Não conseguirei mudar as pessoas, mas posso mudar o que me cerca.
O que escrevi é um desabafo?
Sim!
Mas mais que isso:
Um alerta.
Um dia estamos de um lado, somos visitas.
Noutro somos pacientes.
Saibamos nos colocar nas posições e aprendamos a conviver melhor com os fatos naturais da vida.
Assim poderemos ser mais úteis uns aos outros e ao mesmo tempo dar mais vazão ao amor que todos temos no coração.
Por trás de cada corpo há uma alma, que brilha e vive.
Um beijo cheio de saudades em cada coração.